quinta-feira, 12 de março de 2015

Os espaços que habitamos revelam-nos

Destruí este templo e em três dias o levantarei.” Jo 2, 21
O filósofo Martin Heidegger dizia que “habitar é o traço essencial do ser de acordo com o qual os mortais são”, e Saint-Exupéry descobria que “os homens habitam e que o sentido das coisas varia para eles em função do sentido das suas casas”. Por isso, para além das casas, os lugares sagrados sempre foram expressão do encontro com o divino. Do santuário “portátil” que acompanhava o povo de Israel no deserto ao Templo de Jerusalém, duas vezes edificado, fez-se um enorme caminho. E o Templo, no tempo de Jesus, era o coração de Israel. Nele, Jesus foi consagrado ao Senhor; ali se perdeu em debates teológicos com os doutores da Lei; e também virou tudo do avesso ao ver o átrio dos gentios transformado em mercado. Decididamente, o messias esperado não iria atacar a religião que estava “tão bem organizadinha” em esquemas de sacrifícios, mandamentos e preceitos, clarinha quem nem água para distinguir os “verdadeiros” dos “falsos crentes”! Assustados com a alusão à destruição do Templo (outra vez?) não entendem que a ressurreição de Jesus nos dará o “novo templo” do seu corpo. 

E andaremos sempre a descobrir a maravilhosa ousadia de nos “encontrarmos” no Corpo de Cristo, e de ser membros deste “Corpo”. Para nos encontrarmos com Deus não basta entrar numa igreja . É preciso entrar na intimidade com Jesus, encantarmo-nos com o seu projeto, viver ao seu jeito. Mais do que ser “pedra” de uma construção, todos podem descobrir-se “membros” de um corpo, com uma vida interdependente, onde não há “átrios” de discriminação, e as portas estão abertas a todos, especialmente os mais necessitados de vida e de amor. Sim, é um habitar diferente, mais ao ar livre, sem telhados nem paredes, onde o Espírito Santo nos convoca e estimula a viver em plenitude. Numa comunhão em que, se um membro sofre, todos sofrem, e se um se alegra, todos se alegram. Há muito ainda a aprender para viver assim, não é verdade?