sexta-feira, 20 de março de 2015

Medusa

Os meus gostos musicais são muito diversificados... mas desde cedo comecei a gostar de hip hop... Capicua é Ana Matos Fernandes. Nascida no Porto, cresce a gostar de rimas e de palavras ditas ao contrário. Tem uma voz e um estilo inconfundíveis. Estudou sociologia e faz um doutoramento em Barcelona. Agora lançou um novo álbum com algumas remisturas e uma ou outra coisa nova... Aqui fica Medusa com a participação do grande Valete...

(Capicua)
Ela é medusa.
A vítima que toda a gente acusa.
E de quem a vida abusa.
Ela é Medusa e recua e recusa
E resiste, ele insitiste e arranca-lha a blusa e usa-a
Escusa, ela acua, sozinha na rua
Seminua
Semi-sua
Semi- morta
Porque mais ninguém se importa!
Ela é Medusa
O corpo pra que toda a gente aponta
Que posta, não gosta, 
faz troça, desmonta
Comenta, ali exposta na montra,
De fita métrica pronta
Examina-se a carne
E critica-se a “coisa”.
O resto não conta
É uma sombra...
É uma sombra...
É uma sombra...

Por cada vítima acusada
E transformada em monstro
Em cada casa, cada caso, 
Cada cara e cada corpo 
Em mais um dedo apontado ao outro, 
Cresce a ira da Medusa que me vês no rosto 

(Valete)
Em cima da ponte está a tua irmã desaparecida
em interação com aqueles instintos suicidas
abatida na depressão duma história nunca esquecida
vencida por um trauma de uma violação aos 15
Em cima da ponte está a mulher que bombardeiam
Por usar a liberdade sexual tão proclamada
Degolada por tantas ofensas que vocês fraseiam
Exterminada por aquele nojo daqueles que a rodeiam
Em cima da ponte está Maria Conceição
Vítima de uma relação e de um amor tirano
Marcada pela opressão e traumatismos cranianos
Golpeada por quase 20 anos de agressão doméstica
Em cima da ponte está a tua vizinha acanhada
Há muito aniquilada por esperanças que se esfumam
Há muito rebaixada por vexames que se avolumam
Envergonhada pelo próprio corpo que todos repugnam
Em cima da ponte...

Por cada vítima acusada
E transformada em monstro
Em cada casa, cada caso, 
cada cara e cada corpo 
em mais um dedo apontado ao outro, Oh!’
Cresce a ira da Medusa que me vês no rosto

(Capicua)
Ela é Medusa
A miúda de que toda a gente fala.
Na rua, na sala de aula, e à baila
Vem ela, a cadela, a perdida, sem trela, 
Vadia, cautela com ela, 
Que é livre, e vive
A vida dela
Como se atreve? 
Aquela...
Como se atreve? 
Aquela...
Como se atreve? 
Aquela...
Ela é Medusa
Aquela de que mais ninguém tem pena
Que apanha, sem queixa, que deixa e aguenta
Aquela que pensa que o amor é pra sempre, 
E na crença, sofre em silêncio...
Só. 
Completamente só. 
Esconde a nódoa negra com o pó.
Só. 
Completamente só. 
Esconde a nódoa negra com o pó.

Por cada vítima acusada
E transformada em monstro
Em cada casa, cada caso, 
cada cara e cada corpo 
em mais um dedo apontado ao outro, Oh!’
Cresce a ira da Medusa que me vês no rosto 
é a minha ira, a nossa ira, a ira...
a minha ira, a nossa ira, a ira...
a minha ira, a nossa ira, a ira...

A letra é poderosa, certo?